"Perdeu, Mané": o 8 de janeiro como acontecimento discursivo e a crise da justiça no Brasil
DOI:
https://doi.org/10.28998/2317-9945.202687.487-502Palavras-chave:
8 de janeiro., Análise do Discurso., STF., Crise Institucional., Memória Política.Resumo
Este artigo analisa a inscrição "Perdeu, Mané" na estátua da Justiça do STF como sintoma de uma crise discursiva e institucional, no Brasil, em 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram os prédios dos Três Poderes, em Brasília. Para tanto utilizamos, como aporte teórico metodológico, a Análise do Discurso filiada a Michel Pêcheux e Eni Orlandi. O estudo mostra como o evento reflete tensões históricas e materiais, como: desigualdade pós-pandemia, polarização e deslegitimação do Judiciário. A frase "Perdeu, Mané" — originalmente um meme que ridicularizava Bolsonaro — foi ressignificada como ataque ao STF, invertendo a humilhação – Mané - tradicionalmente dirigida a pessoas tidas como ingênuas, fáceis de enganar. Esse gesto expõe a percepção de parcialidade judicial, vinculando-se a críticas anteriores (Lava Jato, impeachment de 2016). A escolha da estátua da Justiça como alvo simboliza a ruptura com o ideal de neutralidade, transformando-a em emblema de disputa. O artigo destaca o contexto material da crise econômica e manipulação por elites temerosas de reformas redistributivas. A migração do meme para o STF mostra a hibridização das resistências políticas. Conclui-se que o 8 de janeiro revela a fragilidade do consenso democrático, em que instituições são interpeladas como atores partidários; não árbitros. A democracia, assim, é um campo de lutas políticas e discursivas em que a linguagem adquire poder e legitimidade.
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