Genealogia e as raízes da recepção moderna do princípio da utilidade: de Pierre Gassendi a Thomas Hobbes
Resumo
A concepção de utilidade tem raízes na filosofia de Epicuro, para quem a experiência e as sensações eram elementos fundamentais. Seu hedonismo buscava a ausência de dor (aponia) e distinguia prazeres mentais em cinéticos e catatesmáticos, priorizando estes ao invés daqueles ao defender uma vida oculta e sem excessos. O epicurismo foi uma tradição filosófica mal compreendida e estigmatizada, muitas vezes confundida com o hedonismo radical dos cirenaicos. A recepção cristã o rebaixou, muito embora tenha assimilado elementos seletivos. Somente com o humanismo renascentista, notadamente através de Pierre Gassendi, o epicurismo foi resgatado do limbo filosófico que se encontrava, cristianizando-o e adaptando-o às exigências da fé e da ciência moderna. A alquimia filosófica de Gassendi foi fundamental para reintroduzir o hedonismo no debate filosófico europeu. Na Grã-Bretanha, a revalorização do epicurismo foi impulsionada pela filosofia natural e pelo crescente interesse pelo
atomismo. Walter Charleton e outros membros da Royal Society ajudaram a compatibilizar essa corrente com a ortodoxia religiosa, consolidando em solo britânico uma mudança paradigmática que encontrou no princípio da utilidade o seu eixo central, desvinculando-a de explicações teológicas. Thomas Hobbes, embora não fosse estritamente epicurista, incorporou o materialismo e o foco na percepção sensível em suas ideias. O Estado soberano, resultando do pacto social, emerge como uma instituição necessária para regular os desejos individuais e garantir a ordem e a paz. A utilidade pode ser observada na ascensão do fenômeno político do hedonismo político, compreendido em termos de busca por felicidade e segurança de indivíduos autointeressados.
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