Leitura e transformação: Hume, Hutcheson e a pluralidade moderna ilustrada pela recepção de Cícero
Resumo
No texto, distinguimos duas vias para abordar a recepção dos antigos na modernidade. A primeira é contextualista e busca restituir com rigor conceitual e filológico o sentido original dos clássicos. A segunda, interventiva, privilegia a atualidade dos antigos, admitindo desleituras e transformações orientadas por problemas presentes. Adotando a segunda via como foco central, tentamos evidenciar como Hutcheson e Hume se apropriam de Cícero, mais especificamente da abertura do conceito de honestum, para fins distintos, frequentemente opostos, revelando a “modernidade de Cícero” no debate entre autoestima e benevolência como motivadores da ação moral. Em Hutcheson, o honestum é psicologizado: um senso moral inato apreende imediatamente a benevolência, fundamento das virtudes, democratizando a percepção do mérito e sustentando uma moldura providencial que se opõe ao cálculo do interesse próprio. Em Hume, o vocabulário ciceroniano é reclassificado. Virtudes se tornam qualidades úteis ou agradáveis a nós e aos outros. Com isso, o juízo moral é recolocado numa economia dos sentimentos, e a simpatia passa a ocupar um ponto central, atribuindo a origem das virtudes ao corpo social, suas práticas e
reconhecimentos mútuos. O contraste mostra a recepção como um jogo de luz e sombras, apropriações seletivas, transformações dos nexos tradicionais e de fundamentos, que se deslocam da recta ratio para a providência de um lado, e
para a simpatia e a convecção de outro.
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